Poder, violência e maternidade: leia o romance “Dora”
Dores e dádivas compõem a multifacetada prosa de fôlego de Maria Teresa Hellmeister Fornaciari, finalista do Prêmio Jabuti em 2016
Após incursões pelo verso e pela narrativa breve, a paulistana Maria Teresa Hellmeister Fornaciari estreia na prosa de fôlego com o romance de formação Dora. Entre dores e dádivas, a narrativa se arma em fragmentos não lineares e atravessa décadas – da Ditadura Militar, palco da história a certa altura, ao ano de 2024, epílogo da obra –, acompanhando uma protagonista que abandona o sertão de Minas, ainda jovem, e acaba enredada nos jogos de poder da diplomacia, nos dilemas da maternidade e na violência de gênero – um dos temas centrais do livro, segundo o texto de abertura do escritor e filósofo Rodrigo Petronio.
Apesar de a autora ter optado pela focalização interna, avançando a história a partir da complexidade interior da personagem central, o romance não deixa de mostrar a “verdadeira” cara de um país assombrado por abismos sociais. Para Petronio, Dora escancara um Brasil “de disputas pelos ossinhos engordurados de uma galinha”.
“Um Brasil que expropria a mãe de seu filho em troca de um emprego”, prossegue. “Um Brasil profundo, feito de estupros e de orfandade, de incesto e de escassez, de lutas e de fracassos, de humilhações e de impotência diante de tantas e tão variadas formas de violência, arcaicas e perenes.”
Culpa, falsas promessas e abandono
Se fugir do sertão pode ter parecido solução para o asco que Dora sentia dos afagos paternos, uma crescente culpa por sentir falta deles atormenta a personagem e faz com que ela se distancie dos próprios sentimentos. A partir desse eixo interior, o texto se desenvolve. “Corajosa, Dora abandona suas raízes e seus seis irmãos mais novos cheios de carências para se aventurar num mundo desconhecido: torna-se babá dos filhos de diplomatas em países da Europa, escreve diários e registra que, apesar de seu crescimento intelectual, não se considera pertencendo a tais espaços”, explica Maria Teresa.
“Com a promessa de que sua família será beneficiada, mantém relacionamento com um dos diplomatas e engravida”, continua. “O recém-nascido é arrancado de seus braços conforme o combinado com o pai/patrão, mas os olhares entre mãe e filho no exato instante do nascimento embaralham suas convicções. Ela é mãe de todos, mas não é mãe em sua plenitude. Dora estimula que se discuta a situação da mulher e de seu diálogo/reflexão como filha/amante/mãe, tudo em função da maternidade e de seus conflitos.”
Trecho | Dora
Subir os muitos degraus para entrar no avião imenso foi como esconder-se do tempo. Gotas de água escorriam por janelas apreensivas: difícil se imaginar flutuando, passando no meio das nuvens. Nuvens gordas, graúdas, entrando goela adentro. Dora nunca poderia supor que sua poltrona se estenderia, que o cobertor rosa aqueceria seus pés aconchegados nas meias da necessaire de couro azul-marinho. Miséria se cura com abundância? A seu lado, Henrique dormia sereno, planando no céu, enquanto Tonho e seus outros irmãos dividiam, na Terra, espaços mirrados nos colchões com cheiro de urina, apesar da obsessão da mãe por limpeza. Lembranças são avessas a regras e a espaços.
A autora | Maria Teresa Hellmeister Fornaciari
Nasceu em São Paulo, em 1954. Mestre em Língua Portuguesa pela PUC-SP, escreveu Tambores e violinos, Encontros e des-encontros, Avesso sentido e Coisas que não importam. Atualmente ministra oficinas literárias para adolescentes, que a inspiram a escrever para o público juvenil. Frequentou oficinas de escrita, recebeu prêmios em vários concursos literários e a indicação para o Jabuti, em 2016, com seu livro de contos Avesso sentido. Com Dora, abre uma nova vertente em sua carreira literária: o romance de formação.



